O Museu de Farinha Contemporânea de Florianópolis

 Quem foi à Divina Farinhada* em Santo Antônio de Lisboa e gosta de uma boa prosa de beira de forno pôde notar que a  festa ultrapassa a repetição dos rituais tradicionais da comunidade proporcionando por excelência um espaço de reflexão desta cultura que ganha novos significados a cada ano que passa.

Divina Farinhada 2011

por Gabriella Pieroni – Ponto de Cultura Engenhos de Farinha

As crianças corriam por todos os lados enfeitiçadas pelos bois e pela farinha que saia quentinha do forno, as mulheres exibiam orgulhosas no balcão suas deliciosas iguarias feitas a partir da mandioca, o palco montado no pátio trazia as atrações da música popular ilhéu. Enquanto isso, a conversa rolava solta na Divina Farinhada e seguiu até altas horas após o último forneio da farinha. Uns abraçados aos “fusos” do engenho outros sentados sobre os “coxos”, fazendo de mesa partes da “prensa” na apreciação do pirão d água, rodas de prosa circundavam as peças do museu histórico, que naquela noite ganharam alma revestindo-se de especial utilidade no feitio artesanal da farinha.

Nesse saragaço todo não teve quem não contou a sua história, afinal “Nosso colchão era a esteira!” lembrou Manoel Luiz Gonzaga, revivendo memórias da família nativa do “Caminho do Velhaco” atual Rua Aldo Queirós. Manoel aproveitou a ocasião para se encontrar com o amigo José Zeno De Andrade e botar em dia questões da comunidade que envolve a dinâmica desta tradição. Ambos fazem parte do grupo de doze pessoas que a cerca de uma década movimentam o “Engenho do Djalma” que foi montado na intenção de continuar fazendo a farinha como antigamente, a exemplo da família Andrade.

A mobilização é responsável por cerca de 3000 metros quadrados de roças de mandioca plantadas no morro de Santo Antônio de Lisboa, nesta ilha que mesmo em plena urbanização insiste em se manter rural. “A rama da mandioca nativa foi perdida, mas temos hoje o aipim “pêssego”, ”vassourinha” e também a “amarelinha”, se referindo as variedades de mandioca plantadas por eles. As roças são mantidas nas áreas tradicionais de plantio, para não prejudicar a Mata Atlântica. Um dos conflitos para o retorno da agricultura nestes locais é o fechamento dos antigos caminhos que davam acesso às plantações como o “Caminho da Piteira” bloqueado pela construção de um condomínio,que vêm sendo reivindicado por moradores da comunidade, conta Manuel.

A paixão pela memória dos engenhos de farinha é mesmo notável, mas não deixa de expressar questões do processo histórico recente de muitas comunidades da ilha que passaram  pela transição brusca da economia de subsistência para um quase total abandono da pesca artesanal e agricultura familiar. Estas práticas que pareciam estar sendo perdidas voltam a ser incorporadas ao cotidiano de Santo Antonio de Lisboa somando novos significados para a cultura e economia local, que hoje se apóia no turismo, resistindo aos modelos de desenvolvimento mais impactantes. Não é por acaso que ao chegar à comunidade o turista é prontamente convidado a conhecer o Museu Histórico Casarão dos Andrade como é denominado o complexo composto pelo antigo casarão, pátio e engenhos de farinha e cana-de-açúcar.

“Aqui é um museu, mas é um museu vivo” comenta durante a festa,entre um bejú e outro,José Roberto de Andrade, 40 anos, que com o irmão Cláudio reavivam  a cultura dos engenhos em Santo Antônio. Beto se dedica a pesquisa dos saberes da construção de peças de engenhos, para isto já esteve percorrendo outras localidades do litoral para aprender técnicas que estão sendo perdidas.

A Divina Farinhada, ao reacender o forno deste engenho esquentando a prosa destas pessoas comprova as palavras de Beto quanto à característica do engenho-museu, um museu vivo da cultura ilhéu. Também deixa transparecer que a vivacidade desta cultura não é em si isenta de conflitos,“ Eu não sei dizer se é uma cultura ou uma tradição, porque para os antigos isso era apenas trabalho, e para nós, o que é?” Desabafa Beto  refletindo com o grupo de amigos e parentes sobre a construção da própria identidade. Revelando-se um Museu da Farinha Contemporânea de Florianópolis, o espaço da Divina Farinhada, após a retirada dos bois e o apagar da chamas do forno serve também de integração entre mais seis engenhos do litoral catarinense. Juntos formam o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha iniciativa que valoriza o modo de vida relacionado aos engenhos tradicionais de farinha, apoiando agricultores que em sua maioria ainda vivem desta produção, mantendo estes saberes e locais. As atividades incentivam o agroturismo e as vivências culturais nos engenhos além do fortalecimento destes no movimento internacional “Slow food” que valoriza tradições culinárias regionais como proposta política e ambiental. Na interseção entre a prática do agroturismo, da agroecologia e da cultura estas comunidades vivem suas tradições em sintonia com seu tempo. O nativo de Santo Antônio de Lisboa que acompanha pelo seu Portal de notícias “on line” a cobertura da Festa do Divino 2011 também mostrou nesta “Divina Farinhada” que para se manter moderno é essencial não esquecer a sua História.

*realizada em 03/09/2011